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14 de agosto de 2026

Travessia da Serra do Espinhaço/MG - Morro do Camilinho x Lapinha da Serra - Relato e dicas

Em Maio de 2024 planejei a TransEspinhaço no sentido sul-norte iniciando no Distrito de Altamira (próximo da Serra dos Alves) para finalizar no Morro do Camilinho, numa caminhada de quase 150 Km passando pela Lapinha da Serra.
Estava tudo certo, tracklogs no celular e mochila abarrotada, porém tive um pequeno problema no ligamento colateral do joelho e com isso tive que abortar no meio do caminho, ao chegar na Portaria Alto Palácio, desistindo da mega travessia. Nesse link tem o relato.
E prometi a mim mesmo que algum dia retornaria para finalizar essa travessia assim que surgisse uma oportunidade.
E nas minhas férias do meio do ano de 2026 o plano A era a Travessia do Parque Nacional de São Joaquim, de Urubici até Bom Jardim da Serra, seguindo pelos paredões da Serra Geral que eu já tinha tentando fazer há vários anos. 
Na verdade seria a continuação da Travessia do Campo dos Padres que eu tinha feito a uns 20 anos atrás, nesse relato.
E nesse planejamento contatei alguns montanhistas do sul do país (entre eles o Getulio Vogetta) e o pessoal do Parque que me passaram várias informações úteis, mas uma delas me deixou com um pé atrás: boa parte dessa travessia seguiria por propriedades privadas que ainda não tinham sido totalmente desapropriadas pelo Parque. Teria que fazer essa travessia na surdina com risco de ser abordado por donos de fazendas. 
No Campo dos Padres já tinha passado pela situação de ser abordado e quase ter de retornar ao início, porque não queriam que a gente continuasse.
Pensei melhor e achei que valeria a pena esperar a total desapropriação dessas propriedades, que segundo o Parque já estava em andamento.
E com isso tive que ir para o plano B que era o trecho da TransEspinhaço que faltava completar.
Mudando a minha caminhada do sul para o sudeste, agora era ler relatos e estudar alguns tracklogs para escolher a melhor maneira de completar essa travessia.
E cheguei a conclusão que a melhor logistica tanto para chegar quanto para sair era no sentido norte-sul, iniciando no Morro do Camilinho para finalizar na Lapinha da Serra ou na Portaria Alto Palacio. 
Sem a necessidade de autorização do Parque Nacional da Serra do Cipó, já que seguiria por trechos fora dos limites, arrumei minha mochila cargueira para uns 5 ou 6 dias e na última semana de Junho de 2026 segui para Belo Horizonte, onde embarcaria para o meu destino.

Nas fotos acima, trechos da parte alta da Serra do Espinhaço



Fotos dessa caminhada: clique aqui

Tracklog para GPS com 50 waypoints: clique aqui

Alguns vídeos: clique aqui


Considerada a única cordilheira do país, a Serra do Espinhaço segue na direção sul-norte se estendendo por cerca de 1.200 Km, com início próximo da cidade de Ouro Branco, no centro de Minas Gerais até o norte da Bahia, já na Chapada Diamantina e por isso recebeu o nome que tem a ver com espinha. 
Outra característica que acontece somente no Espinhaço são as rochas que emergem do solo inclinando na mesma direção, para oeste. 
Elas lembram os dentes de uma serra e são conhecidas como serrotes e a teoria mais aceita é que no encontro das placas tectônicas houve uma elevação do relevo e consequente soerguimento dessas rochas que depois sofreram erosão por desgastes naturais, evidenciando que partes de Minas Gerais já foi um oceano.


1° dia
Embarquei na Rodoviária do Tietê no meio da noite e desembarquei na Rodoviária de Belo Horizonte no início da manhã seguindo direto para o guichê da Passaro Verde.
O ônibus que eu vou embarcar tem ponto final em Diamantina, mas comprei somente até Morro do Camilinho com saída às 09h15min e cuja venda é feita somente no guichê. Se fosse pela internet teria de comprar até a cidade de Gouveia, cujo preço seria uns $12 Reais a mais (achei que seria bem mais – deveria ter comprado pela internet mesmo).
Com alguns minutos de atraso, o ônibus saiu relativamente vazio e pude escolher qualquer assento.
Ao longo do trajeto cochilei por alguns minutos e lembro que o ônibus parou em umas 3 ou 4 Rodoviárias e ao passar por Presidente Juscelino se iniciou a subida da Serra do Espinhaço. 
Serra do Espinhaço no início da trilha
Já fui me preparando porque logo chegaria no ponto mais alto da Serra, no acesso à antiga usina eólica, onde 4 enormes torres não funcionam mais. Elas foram criadas na década de 90 e por ter uma manutenção muito cara, a CEMIG resolveu desativá-las.
Por volta das 13h40min desembarquei do ônibus sob um Sol de rachar e depois de vários clics e algumas mensagens para o grupo da família, deixo o telefone celular no modo avião e continuei pela Rodovia, sentido Gouveia por uns 500 metros até chegar numa bifurcação à direita. 
Saída da Rodovia
O relógio marca pouco minutos depois das 14:00 hrs e aqui se inicia uma estradinha que segue pelo interior da serra, passando por algumas fazendas e pequenos sítios.
Para quem não trouxe água, cruzei com uns 2 pequenos riachos de água potável nos primeiros minutos e o que chama a atenção são algumas porteiras com placas de Propriedade Particular – Entrada Proibida, mas fui seguindo pela estrada assim mesmo.
E por volta das 15:00 hrs cruzo com o Riacho da Contagem com um volume maior de água e um pequeno poço junto da estrada. É um convite para um banho, mas era cedo demais. 
Pinturas rupestres
Com mais alguns minutos saio da estrada numa trilha à esquerda que leva até um pequeno sítio arqueológico com pinturas rupestres num paredão vertical da serra, datadas de mais de 11.000 anos atrás. É bem semelhante ao que eu já tinha presenciado na travessia Altamira x Alto Palácio, por serem desenhos de animais e aves.
Voltando para estrada, logo à frente outra porteira com placa de proibido acesso sem autorização. 
Uma placa de Trilha Capim Prata surge à direita e não penso 2x – abandono a estrada e sigo por ela.
Trilha bem demarcada cruzando um pequeno riacho e uma placa indicando outro sítio arqueológico à esquerda.
Outro sítio arqueologico
Sigo na direção dele, mas nesse as pinturas estão quase desaparecendo. Pelo relevo do lugar, lembra muito algumas lapas que eu já tinha conhecido na Chapada Diamantina, nesse relato.
Seguindo a trilha agora com o Ribeirão da Contagem bem próximo à direita e às 16h15min estou de volta à estrada.
Outra porteira e logo a frente uma bifurcação à direita que leva até a sede da Fazenda da Prata.
Aqui prefiro seguir em frente, para esquerda, mas se optar pelo caminho da direita, os 2 voltam a se encontrar mais à frente. 
Caminho por ali
No trecho da esquerda sigo em aclive suave por alguns minutos e bem ao fundo já visualizo trilhas na cor branca 
no meio da serra, que depois fui constatar serem de cascalhos. Descendo em direção ao Rio Paraúna, outra porteira surge à frente e numa bifurcação sigo até a margem do Rio, onde chego exatamente as 17:00 hrs.
Nessas quase 3 horas de caminhada não cruzei com nenhum ser humano, só mesmo alguns cachorros, bois e vacas.
Rio Paraúna
O Sol já tinha se escondido no horizonte e era hora de montar a barraca num trecho onde se formou uma pequena praia de areia fina.
O Rio Paraúna está com um volume razoável, mas não me pareceu ser muito fundo e cruzá-lo naquele trecho acho um pouco arriscado devido a correnteza forte e por ser bem largo.
A água do jantar eu já tinha o necessário e nem precisei pegar do rio, que não achei muito confiável para beber. 
Depois de um banho fiz o meu jantar com massa e calabresa defumada do lado de fora da barraca, já que a temperatura estava bem agradavel e sem ventos.
Camping ao lado do Rio
Esperando o sono chegar, fiquei um certo tempo só admirando as estrelas para quem sabe ver alguma estrela cadente.


2° dia
Durante a noite a temperatura não caiu tanto e acordei por volta das 06:00 hrs com a barraca totalmente seca e os primeiros raios do Sol banhando as partes mais altas da serra. 
Com barraca desmontada e um café da manhã bem reforçado com alguns bolinhos recheados, sucos e frutas secas, arrumei todas as coisas na cargueira e era hora de retomar a pernada.
Voltei para estrada poucos antes das 07:00 hrs, seguindo paralelamente ao Rio Paraúna até chegar na ponte sobre ele, que não inspira muita confiança devido ao seu estado de conservação. 
Ponte sobre Rio Paraúna
É de tabua de madeira com alguns troncos de árvores colocados para cobrir buracos.
Nos dois lados do rio um poção e pequenas quedas com vestígios do que me pareceram serem antigas áreas de garimpo.
Trecho inicial
Assim que finalizo a ponte, sigo numa bifurcação à esquerda e daqui em diante o trecho é por trilha demarcada com muito cascalho e pequenas pedras soltas que exigem muita atenção, pois o risco é grande de escorregões e torções nos tornozelos. Além do fato que os dedos dos pés sofrem muito e se não tiver uma bota com solado reforçado é bolha na certa.
Mesmo com trecho de muito cascalho e pedras soltas noto também marcas de pneus de moto. Uma pena, porque está se criando valas ao longo da trilha.
Bifurcações
Surgem algumas bifurcações, mas é só se manter na trilha principal e evitar algumas bifurcações para direita.
3 pequenos riachos que são afluentes do Corrego do Bicho cruzam a trilha e pelo menos água é o que não falta nessa travessia.
E uma planta endêmica do cerrado também é encontrada aos montes nesse trecho, que são as canelas de emas, que é a marca registrada da Serra do Espinhaço.
Vegetação típica de cerrado
E com uns 40 minutos de caminhada finalizo o trecho de subida e se abre uma linda paisagem à frente. A altitude aqui é pouco mais de 1.000 metros e vou seguindo por uma espécie de vale, sem ganhar muita altitude.
A partir daqui a trilha não apresenta mais bifurcações e o aclive é bem suave cruzando pouquíssimas áreas com sombras. Nem consultava mais o tracklog no celular e uma ou outra área de mata fechada surge ao longo do percurso.
Corrego do Bicho
E de repente chego na margem do Corrego do Bicho com suas piscinas naturais e várias pequenas quedas de aguas cristalinas.
As piscinas são um convite ao mergulho, mas a agua é muito fria, me fazendo desistir. 
São 08h50min e o lugar é perfeito para montar barracas devido aos vários descampados planos junto do rio.
Bons lugares de camping
Aqui também é o encontro da trilha para quem vem da Vila do Cemitério do Peixe - é só cruzar o rio e seguir numa trilha demarcada.
Alguns minutos para fotos e sigo agora por um pequeno trecho de subida íngreme e não muito longe do Corrego do Bicho.
Vou evitando algumas bifurcações à direita, que depois de olhar no google earth, essas trilhas voltam a se cruzar bem mais à frente, mas prefiro seguir na trilha principal da esquerda, não muito longe do Corrego.
Linda paisagem
Uma linda paisagem pode ser apreciada atrás de mim e várias pequenas cachoeiras podem ser vistas no Corrego do Bicho, mas infelizmente vou ter deixar de lado.
A caminhada é pelos campos sujos e trechos de cerrado com muitas trilhas paralelas se fechando. 
A navegação é até um pouco confusa, pois ao seguir por uma trilha de repente ela some do nada e com isso tive que consultar o tracklog em vários momentos.
É um trecho cansativo, mas é só não se distanciar muito do Corrego do Bicho à esquerda.
Depois de cruzar algumas porteiras de ferro fechadas, chego no primeiro rancho, que parece estar vazio naquele momento. Com certeza abandonado ele não está porque vejo vários animais como vacas e cavalos ao lado do rancho.
Rancho ao lado da trilha
Uma pequena pausa para descanso no gramado ao lado dele alguns pés de limão e laranjas abarrotados.
Cruzo outra porteira e mais trilhas paralelas alternando trechos no plano com pequenos aclives com o Corrego do Bicho bem próximo.
Só é preciso um pouco de cuidado ao cruzar os inúmeros riachos afluentes do Bicho (contei uns 6), pois a mata ciliar não permite cruzá-los fora da trilha principal.
Cruzando riachos
Pelo menos não preciso ficar carregando água na cargueira. É um peso a menos.
Um dos afluentes é bem largo e para não tirar as botas tive até uma certa dificuldade para cruzar pulando as pedras.
E assim que cruzei uma porteira de madeira noto uma placa alertando de Proibido Caçar. 
Animais pelo caminho
Daqui em diante várias outras trilhas paralelas surgem e depois de alguns minutos vira uma estrada, mas só para passagem dos animais que vejo bem ao fundo, ao lado de algumas casas. São apenas cavalos que passei ao lado deles sem nenhum problema.
São 15h45min e essa é a propriedade do Senhor Adão, mas nenhuma vivalma. 
Nesse dia e horário exato está tendo um jogo da Copa do Mundo entre Argentina x Áustria, que consigo ouvir pelos alto falantes ou de uma TV que tem um belo sistema de som.
Sede da Fazenda Sr. Adão
Consegui até ouvir um dos gols do Messi bem próximo do final da partida. 
Acho que era por isso que não encontrei ninguém. Todo mundo assistia ao jogo.
Depois de passar pela porteira da propriedade e ao lado de um imenso eucalipto fui seguindo por uma estrada e com o Corrego do Bicho bem largo pela frente.
Tentei seguir pelo meio do charco na lateral, mas afundei a minha bota em alguns momentos e por isso tive que retornar.
O jeito foi tirar a bota e seguir pelo meio do riacho e assim que cruzo ele, viro para direita, na direção sul até chegar em uma porteira de arame.
Trilha pelo pasto
A trilha é de fácil navegação por capim ralo e vegetação arbustiva tendo o Corrego do Bicho bem próximo, agora pelo lado direito.
Uns 30 minutos depois de cruzar o Bicho, chego em um pequeno afluente dele onde existem algumas quedas e faço uma parada para descanso. 
São 16h30min e alguns metros depois desse afluente parece ser um bom lugar para montar a barraca.
Camping ao lado de um pequeno riacho
Olhando o tracklog vejo que o próximo riacho está um pouco longe e com muitos trechos expostos ao vento, se fosse acampar mais à frente.
Foram pouco mais de 18 Km nesse segundo dia e sem muita pressa vou montando a barraca.
Depois de um banho num pequeno poço do afluente, faço meu jantar ao lado dele. É massa com peixe e alguns pedaços de calabresa.
Por volta das 21:00 hrs já me recolhia para dentro do saco de dormir e outra noite tranquila.


3° dia
Fui levantar por volta das 06:00 hrs e dessa vez a capa da barraca estava toda ensopada, devido ao orvalho da madrugada.
 Cargueira arrumada e Sol surgindo
Deixei em cima de alguns galhos e fui preparar meu café da manhã.
Retomei a caminhada por volta das 07:00 hrs seguindo pela trilha demarcada com o Sol atingindo somente as partes altas da serra.
Só não gostei de molhar a calça e a bota na vegetação ainda molhada.
E com uns 20 minutos saio da trilha principal e cruzo as nascentes do Corrego do Bicho para direita, no outro lado do vale. 
A trilha aqui não existe e vou seguindo na direção de uma cerca de arame ganhando altitude aos poucos e ao chegar nela tive que passar por debaixo para não me arranhar, já que não encontrei nenhuma porteira de arame. 
Paisagem ao redor
Já do outro lado encontro vestígios da trilha e vou subindo em meio a muito cascalho até a chegar ao topo dela com lindas vistas nos arredores, tanto ao sul quanto ao norte.
Nesse ponto dá para visualizar exatamente as nascentes do Corrego do Bicho ao norte e do outro lado da serra as nascentes dos afluentes do Rio Preto.
Cerrado no topo da trilha
A caminhada agora segue pelo alto da serra sentido sul por declive suave e nesse trecho as trilhas paralelas surgem novamente em meio a vegetação de campos rupestres e algumas árvores retorcidas, típicas do cerrado.
Em alguns momentos sem olhar o tracklog me distanciei demais da trilha principal e fica até difícil identificar qual delas seguir.
Topo da Serra do Espinhaço
No horizonte ao sul a vista é maravilhosa sem um impedimento sequer e acho até que consegui identificar o Pico do Breu, que é o ponto mais alto dessa parte do Espinhaço.
Com o fim das trilhas paralelas, a navegação dá uma melhorada e segue tranquila sem maiores dificuldades. 
Cruzando rios
E próximo de um pequeno riacho encontro um bezerro solitário pastando na vegetação. 
Continuando a descida suave pela trilha, outro riacho surge, onde tive que tirar a bota para cruzá-lo.
Só foi caminhar mais alguns minutos e de repente surge uma moto no sentido contrário. É um senhor e conversamos por alguns minutos sobre a minha caminhada e onde quero chegar.
Me pergunta sobre o meu grupo e depois de dizer que estou sozinho, ele fica até surpreso de encontrar alguém solitário por essa região, já que não é comum.
Ele também diz que está buscando alguns bois e vacas e digo a ele que encontrei um bezerro a cerca de uns 40 minutos atrás, sozinho. Na conversa até esqueci de perguntar seu nome.
Voçoroca no caminho
De volta a caminhada, agora sigo para esquerda até chegar a uma grande voçoroca que é uma enorme fenda cruzando a trilha. 
Tentei até encontrar um outro ponto para cruzar aquele trecho, mas cheguei a conclusão que teria seguir por uma trilha mais longa.
Então resolvi descer até o fundo daquela cratera e continuar a caminhada até um ponto onde sairia dela. E não demorou muito até voltar a caminhar em declive suave, agora por trilha de fácil navegação. 
Do lado esquerdo surge uma casa em meio à mata e talvez dali que deve ter saído o morador com a motocicleta.
Trilhas de cascalho ao fundo
Conforme me aproximo do Rio Preto, no fundo do vale, chama a atenção trilhas que viraram estradas com piso de cascalhos todas em branco e uma bifurcação à direita que leva até a Vila de Fechados. Esse é o trajeto da Travessia Extrema x Fechados.
Rio Preto
Com trilha em declive, vou me aproximadamente de duas cachoeiras no Rio Preto: a trilha da esquerda leva até a Cachoeira do Cedro, já a direita segue na direção das cascatas do Rio Preto.
Pelo visual resolvo seguir na direção das cascatas, que são pequenas quedas em sequencia.
Aqui só consegui cruzar tirando as botas porque a agua batia na altura dos joelhos.
Cascatas do Rio Preto
O Rio Preto nesse ponto é bem largo e um pouco perigoso seguir pulando as pedras, já que o risco de queda rio abaixo é grande.
São 11h30min e já do outro lado do rio resolvo fazer uma parada para lanche e um breve descanso.
Aqui é preciso um pouco de cuidado porque o caminho segue em linha reta na direção do que parece ser uma trilha toda cascalhada. Até dá para seguir por ela, mas é um trecho cansativo e sem áreas de sombras além do que existe um aclive bem acentuado no início. Eu cometi esse erro e tive que retornar.
Pulando pedras
A dica é assim que cruzar o rio siga por uma trilha à esquerda como se estivesse subindo o Rio Preto até encontrar uma outra e dali seguir em frente sem ganhar altitude e com menos esforço.
Com mais alguns minutos de trilha surge um dos únicos trechos de mata fechada, que dá um certo alivio na caminhada e num trecho com muita vegetação e toda sombreada até tiro um cochilo, pois o Sol castigava.
Estrada no meio da serra
Volto a caminhar um pouco mais descansado e já próximo do final desse trecho de mata, surge uma estrada à direita subindo. Olhando no Google Earth ela segue na direção da Fazenda do Dante (é aquele fazendeiro que não permite montanhistas cruzando áreas de sua propriedade – evite passar próximo da sede de sua Fazenda).
Mais alguns metros e chego no Riacho dos Pilões, onde tenho uma certa dificuldade para atravessar pulando as pedras. O volume d’água é um pouco maior e até tem uma pequena piscina natural ao lado que pode ser uma boa opção para um descanso.
Fazenda Pinhões da Serra
Assim que cruzei o Riacho, a paisagem se abre num grande descampado e agora sigo num trecho de subida até chegar na sede da Fazenda Pinhões da Serra às 13h40min, totalmente abandonada. Uma grande área de sombra é um convite para um descanso.
Depois de uma porteira de arame a estrada continua subindo sentido leste, mas o meu caminho é descer alguns poucos metros pela estrada e cruzar uma porteira de ferro, sentido sul. É como estivesse seguindo paralelamente ao Riacho dos Pilões.
Cruzando porteiras
A trilha é bem demarcada cruzando alguns riachos e uma bifurcação à esquerda que leva até um rancho e provavelmente com algumas pessoas morando, já que encontrei pegadas bem recentes na trilha.
Assim que cruzei o segundo riacho nesse trecho, surge uma bifurcação à esquerda que segue na direção do Distrito de Extrema, mas o meu caminho é seguir em frente.
E às 14h40min chego num rancho abandonado com vestígios de queimadas recentes e aqui fico na dúvida se continuo ou não, já que foram somente 16 Km naquele dia.
Rancho abandonado
Na sombra do rancho analiso o tracklog e vejo que daqui em diante os locais para acampamentos são ruins por serem expostos aos ventos. Outra opção seria acampar no início da propriedade do Fazendeiro Dante, mas chegaria já início da noite e pelos relatos que li na internet, muitos não recomendavam. 
Decido então que aqui é o fim da caminhada do dia. O Riacho dos Pilões está bem próximo e o local é protegido e plano. 
Montada a barraca, sigo na direção do rio para um banho e ao colocar meu celular para carregar no power bank, a carga não chega a 50% e com isso sou obrigado a usar um outro.
O jantar foi um pouco de sopão de feijão com massa e calabresa.
Outra noite muito tranquila com temperatura agradável.


4° dia
Fui acordar lá pelas 05h30min com tempo aberto e Sol ainda por nascer.
Durante a noite, mesmo naquele fundo de vale, não fez frio e a barraca estava seca.
Preparei meu café da manhã sem pressa e a mochila já tinha diminuído muito do peso. Só carregava mesmo uma pequena garrafa pet com água, porque nessa travessia ela é abundante.
Subindo pela trilha com rancho abaixo e Sol surgindo ao fundo
E lá pelas 06h40min mochila nas costas e pé na trilha.
A continuação dela é se distanciando do Riacho por áreas de queimadas e ganhando altitude por um pequeno trecho de subida leve, com muita pedra solta. No topo encontro outra trilha vindo da esquerda e só foi caminhar alguns poucos metros até encontrar uma bifurcação que avança pelo interior da mata ciliar à direita.
Visual para o norte com Sol surgindo à leste
Ao cruzar o Riacho dos Pilões encho as garrafinhas de água e a trilha continua subindo em meio aos campos rupestres, canelas de emas e muitos serrotes.
Algumas porteiras de arame pelo caminho e a navegação nesse trecho aberto foi complicada devido as trilhas paralelas que de repente somem, mas o visual é maravilhoso. 
Relevo no topo da Serra
Não são trilhas bem demarcadas e a minha caminhada é sempre consultando o tracklog em alguns momentos. 
Surgem trilhas para esquerda que devem levar a algum rancho, mas minha direção é sul.
E pouco antes das 08:00 hrs chego no ponto mais alto dessa travessia, em 1.391 metros, com um belo visual dois lados da serra, à oeste e leste. 
Mirante para oeste
Num mirante natural até consigo sinal da Vivo no telefone celular e envio algumas mensagens e fotos.
Daqui em diante é um declive suave passando próximo de alguns bois e vacas que pastavam na vegetação até chegar no Ribeirão do Inhame.
Pode até ser um bom local para acampar, mas em meio às pedras e desprotegido.
Ribeirão do Inhame com gado ao fundo
Outra cerca de arame para cruzar e a partir daqui algumas trilhas seguem para encosta à direita, descendo a serra na direção da Fazenda do Dante, que evito a todo custo. 
Esse trecho contem muitos afloramentos rochosos com os serrotes se destacando, que são aquelas rochas inclinadas para oeste que emergem do solo.
O declive vai se acentuando cada vez mais até seguir em zig zag até outro patamar da serra abaixo.
Lindo trecho a ser percorrido
O visual na minha frente é maravilhoso com todo o vale do Ribeirão Soberbo que ainda tenho de caminhar.
Perdendo altitude com extremo cuidado para não sofrer alguma queda nas pedras cascalhadas, a caminhada é lenta até chegar no vale do Ribeirão do Quartel às 10h15min e onde a vegetação é de cerrado com arbustos.
Meu caminho é para esquerda por trilhas sem demarcação até chegar na margem do Ribeirão do Quartel, que cruzo sem dificuldades. Só um pequeno reabastecimento de água e mais alguns metros outro riacho.
Daqui em diante a trilha é demarcada seguindo reto em meio à vegetação arbustiva e capim alto.
Vale do Ribeirão do Soberbo
Um pequeno trecho sombreado é um convite para um descanso, mas prefiro continuar a caminhada, que nesse 
trecho é bem tranquila e não demora muito ela volta a seguir em declive com muito cascalho e cruzando o Riacho do Soberbo em alguns momentos.
Por volta das 12h30min surge do lado esquerdo a Cachoeira do Rubi com seu enorme poção. 
É uma grande cachoeira que vai descendo do alto da Serra por uma fenda, finalizando no poção de águas escuras.
Poção do Rubi com sua cachoeira acima
Só alguns clics e prefiro seguir em frente porque o meu objetivo é aproveitar o Poção do Soberbo quando já estarei fora dos limites da Fazenda do Dante e por volta das 13:00 hrs já saio de sua propriedade. 
Foram cerca de 2h30min nesse trecho, mas parei algumas vezes, sendo possivel fazer pela metade desse tempo.
Agora cruzar o Rio das Pedras na parte alta da pequena cachoeira do Soberbo é perigoso e tenho de contornar a trilha para esquerda cruzando o rio com água um pouco abaixo dos joelhos.
Cruzando os 3 riachos juntos
Aqui é o encontro de 3 riachos: Rio das Pedras que desce do alto da Serra, o Ribeirão Soberbo que vem do norte e o Córrego do Fundo que vem do sul.
De volta à trilha principal já do outro lado, agora sigo na direção do Poção do Soberbo contornando um pequeno morro para chegar nele às 13h40min.
Ninguém pelo local e fui dar uma olhada no abrigo de pedra que também estava vazio, onde montei a minha barraca sem pressa. 
Abrigo do Soberbo
O abrigo é bem rustico e com apenas um cômodo, construído com pedras do lugar.
Só a lamentar algumas peças de maquinários e caçambas usados na mineração de ouro e diamantes na década de 60 apodrecendo ao relento. 
Pelo horário até poderia ficar alguns minutos e depois seguir em direção à Lapinha, mas chegaria por lá a noite e muito cansado.
Enorme poção
Então preferi usar o restante do dia para curtir o lugar e lavar algumas roupas. A água é bem fria e para quem não sabe nadar, não recomendo sair muito da margem porque a profundidade é muito grande; 18 metros.
Com aquele Sol escaldante as roupas secaram rapidamente e fiquei ali o restante daquele dia pegando uma corzinha junto da margem.
Poção do Soberbo
E quando anoiteceu preparei o meu jantar no interior do abrigo usando toda a comida restante e com noite de temperatura agradável e sem ventos me enfiei no saco de dormir para mais uma noite de sono.


5° dia
Novamente fui acordar lá pelas 06:00 hrs sem vestígios do Sol naquele vale e fui preparar meu café da manhã sem pressa.
Cruzando o Corrego do Fundo
Depois de alguns clics retomei a caminhada pouco depois das 07:00 hrs, seguindo a trilha principal sentido sul. 
Na verdade a caminhada é numa antiga estrada toda cascalhada e muita pedra solta, cruzando várias vezes o Corrego do Fundo que me obrigou a seguir num ritmo um pouco mais lento.
Trilha de pedras
Com cerca de 1 hora de caminhada se inicia o trecho de subida leve por entre a mata ciliar já com os raios do Sol tomando conta do vale.
É um trecho curto até cruzar o Corrego do Fundo pela última vez e daqui em diante não haverá outro ponto de água até o fim da caminhada.
Enchi umas 2 garrafinhas e cheguei a um rancho abandonado. 
Um pouco mais acima dele outro rancho, mas esse parece estar habitado pelo estado de conservação dele.
Rancho vazio
Só foi caminhar alguns poucos metros e encontro uma trilha que sai da estrada à direita. É como se fosse um atalho, mas com aclive bem acentuado pela encosta oeste. Se quiser continuar pela estrada os 2 caminhos irão se juntar ao chegar no alto da serra.
O trecho de subida é curto, mas bem cansativo com alguns belos mirantes atrás de mim.
Subindo a encosta
Quando retorno para a estradinha, a caminhada segue agora no plano sem maiores dificuldades.
Com cerca de 3 horas de caminhada chego na última porteira de madeira e de agora em diante é só declive e com um belo visual dos paredões do Espinhaço e algumas partes da Lapinha da Serra bem ao fundo.
Ao invés de continuar pela estrada consolidada no plano à esquerda, cruzo uma cerca de arame numa abertura dela e vou descendo pelo meio do pasto até alcançar uma outra no fundo do vale.
Lapinha da Serra ao fundo à direita
Passo ao lado do famoso "pé de manga" e o o trecho final até o “cotovelo” levou uns 30 minutos. 
O lugar é ponto obrigatório para conseguir uma carona para Lapinha à esquerda ou Santana do Riacho em frente.
Agora uma dúvida: seguir para Lapinha e depois em direção à Portaria Alto Palácio ou finalizar a caminhada aqui mesmo?
Foram 75 Km e acho que cumpri meu objetivo, pois já tinha conhecido os principais trechos da Serra do Espinhaço. 
Carona até Santana do Riacho
Cheguei no cotovelo às 11h30min e não demorou nem 5 minutos consegui uma carona na caçamba de uma caminhonete junto com 2 mulheres, que são funcionárias de uma pousada na Lapinha e estavam retornando para Santana do Riacho. 
O motorista Sr. Lucas me deixou em frente a parada do ônibus para BH, pouco antes das 12:00 hrs.
O ônibus saiu as 15h30min chegando em BH pouco depois das 18:00 hrs, onde embarquei de volta para SP, chegando no dia seguinte.



Dicas e informações úteis

# Deixei disponível no meu Google Drive o tracklog original com quase 100 waypoints de rios, porteiras e outros pontos que podem ser úteis:

# Ônibus Belo Horizonte x Morro do Camilinho (onde é o início da caminhada) comprado diretamente no guichê da Rodoviária. Se for adquirir pela internet compre até a cidade de Gouveia (cerca de $15 Reais a mais) e desembarque ao lado da antiga usina eólica.

# Ônibus Santana do Riacho x Belo Horizonte: 

# Carona no final dessa travessia, a partir do cotovelo, dizem que costuma demorar um pouco. É recomendável ter o contato de alguém que pode oferecer o serviço.

# Para quem pretende fazer no sentido inverso, ao desembarcar em Santana do Riacho não é tão difícil encontrar alguma carona, táxi ou moto-taxi na Praça Santana (em frente à Igreja Matriz). Na dúvida consulte esse link abaixo:
# Essa travessia foi quase toda realizada sem áreas de sombra, por isso protetor solar e um chapéu de abas são itens obrigatórios.

# Sinal de telefonia celular da Vivo só consegui no trecho mais alto dessa travessia, já no 4º dia, próximo do Ribeirão inhame.

# São muitos riachos e nascentes ao longo da travessia, por isso água é um item abundante, não sendo necessário carregar uma grande quantidade. Ideal é 1 litro.

# Muita atenção nas travessias de rios e riachos. A maioria possui muitas pedras que podem provocar sérias lesões, sendo que em alguns é necessário retirar as botas.

# Eu devo ter passado por mais de duas dezenas de porteiras que separam propriedades particulares e encontrei a maioria todas fechadas e mantive assim. Por isso faça o mesmo.

# Em alguns locais que acampei eram propriedades particulares e não deixei nenhum vestígio que montei a barraca ali. E evite fazer fogueiras e traga o lixo de volta.

# Não recomendo essa travessia em épocas de chuvas, tanto pelos raios nas partes altas quanto alguns rios que se elevam de volume e se tornam perigosos para atravessá-los.

# São dezenas e dezenas de bifurcações ao longo dessa travessia que podem confundir e muitas delas estão mais demarcadas que a trilha principal, por isso é imprescindível levar um tracklog confiável. Leve esse: clique aqui.

# É uma caminhada por antigos trechos de estradas, trilhas demarcadas, muitas trilhas paralelas e outras que cruzam de leste a oeste.

# Essa travessia pode ser feita em 4 dias, iniciando pela manhã no Morro do Camilinho.
Mas se preferir em 5 dias dá para aproveitar muitas cachoeiras e rios.

# Se ocorrer algum problema de saúde ou alguma lesão grave ao longo da travessia existem várias rotas de saída para algumas vilas ou distritos à oeste ou a leste. Se puder leve algum arquivo com imagens de satélite para escolher a melhor saída.

# Ao longo dessa travessia não é difícil também encontrar algum rancho ou sitio habitado por famílias para caso de alguma eventual emergência.

# Evite acampar no trecho Ribeirão do Quartel – Ribeirão das Pedras. É uma área que pertence ao Sr. Dante, que não permite que montanhistas passem pela sua propriedade.

# Se essa travessia contar com apoio de algum veiculo, o ideal é seguir até a margem do Rio Paraúna e iniciar a caminhada junto da ponte sobre o Rio, economizando uns 13 Kms iniciais.