10 de julho de 2011

Relato: 2ª vez na Trilha do Corisco – Caminhada de Paraty à Ubatuba pela Serra do Mar

Era minha 4ª vez que tentava fazer essa trilha. Só tive sucesso mesmo na minha primeira vez em 1998, mas o sentido que eu fiz foi entrando por Ubatuba e finalizando em Paraty. 
Nas outras 2x sempre tentei entrar por Paraty, mas sempre encontrava algum problema. 
E dessa vez iniciava a trilha novamente por Paraty e tentaria fazê-la pelo Bairro do Coriscão, mas se não encontrasse iria pelo Bairro do Corisquinho mesmo. 
Chamei um velho amigo de trilha, o Marcelo Gibson e ele topou na hora.


Foto ao lado, placa da Trilha do Corisco junto à Casa da Farinha em Ubatuba





Fotos dessa caminhada + carta topográfica + trilha plotada no Google Earth: clique aqui


Trilha no escuro
No dia 1º de Julho de 2011 marquei com o Gibson na Rodoviária do Tietê para pegar um dos últimos ônibus em direção à Paraty pela Reunidas Paulista, chegando em Paraty pouco antes 05:00 hrs naquela manhã fria de Sábado (02/07).
A Rodoviária estava vazia e ficamos aguardando um certo tempo até a saída do circular Corisco que nos deixou pouco antes das 06:00 hrs no último ponto do Bairro do Coriscão.
Mochilas nas costas, agora seguíamos ainda no escuro serra acima pela estrada de terra até o inicio da trilha que eu tinha encontrado na minha última vez aqui. Ao fundo ainda podíamos visualizar as luzes da cidade. 
O céu estava totalmente limpo e a previsão era de tempo bom naquele fim de semana, bem diferente de quando em passei por aqui em 2010.
Portal de um Sítio

As 06h30min chegamos na entrada do Sitio São Francisco de Assis onde existe 2 portais de concreto e a placa com o nome do sitio jogada no chão e aqui abandonamos a estrada e iniciamos por uma trilha à esquerda em frente ao portão do Sitio. 
O inicio é bem tranqüilo e somente com uma pequena subida nos primeiros minutos para logo em seguida mergulhar em uma densa mata com algumas aberturas de visual.
Vamos cruzando inúmeros riachos e as 07h35min chegamos no mais caudaloso deles: o Rio Corisco.
Para não molhar as botas, fomos pulando as pedras. 
A partir daqui a trilha entra de vez na mata fechada e sem perspectiva de visual nenhum. 

Crista da serra do mar

Essa era a trilha que eu tinha feito em Outubro de 2010 e depois de alguns minutos chegamos na bifurcação à esquerda que poderia nos levar até Ubatuba.
A partir daqui a trilha não é tão demarcada quanto a que estávamos vindo, mas é a que deveríamos seguir, na direção sudoeste.
Uns 100 metros de trilha e tivemos que cruzar novamente o Rio Corisco, mas surgiu um problema depois de alguns minutos: a trilha terminava em um pequeno casebre construído com lonas e que estava em ruínas. 
Procura daqui, procura dali e nada da continuação da trilha e só encontramos alguns antigos postes de telégrafo, confirmando que estávamos em um trecho da antiga Trilha do Telégrafo que aparece na carta topográfica e segue até o Bairro de Ubatumirim.
Antigo rancho

A altitude aqui é de 780 metros e teríamos que chegar no topo da trilha que era próximo de 1000 metros, mas para isso teríamos que varar muito mato, já que a trilha tinha se fechado completamente.
Isso sem saber como a trilha estaria do outro lado, descendo para Ubatumirim.
Talvez fosse até mais complicado ainda o trecho do outro lado da serra.
Paramos para pensar e usando o bom senso, resolvemos desistir e seguimos para o Bairro do Corisquinho.
Lá eu tinha a certeza que existia a trilha demarcada em direção a Ubatuba.
As 08h40min iniciamos o caminho de volta até o ponto de ônibus onde ficamos aguardando até as 11:00 hrs e que nos levasse para o bairro do Corisquinho.
Alambique
O circular fez o trajeto rápido e antes das 11h30min já estávamos na entrada do bairro e seguíamos pelo asfalto.
Depois de passar ao lado de um alambique, logo à frente a estrada se torna de terra e começa a ficar bem mais íngreme. 
Pouco depois das 13:00 hrs alguns sítios vão aparecendo ao longo da estrada e por um erro meu, passamos direto pelo inicio da trilha e só fomos parar no final dela, onde existe uma casa aparentemente abandonada.
Nesse local onde cheguei até tentei encontrar uma trilha que seguisse morro acima até o selado e interceptasse a Trilha do Corisco mais acima, mas não teve jeito, tivemos que voltar.
Retornamos pela estrada até um grande descampado que marca o inicio da trilha e aqui entramos na mata.
Cruzando pontes
Quem estiver vindo do Bairro do corisquinho deve fazer o seguinte: assim que a estrada virar em uma curva bem fechada para direita e próximo ao um descampado do lado esquerdo, a trilha entra na mata à esquerda e mais uns 100 metros vai cruzar com pequeno riacho, onde existe alguns troncos de madeira com um corrimão de cabo de aço, mas desnecessário. 
Seguindo para esquerda, logo a trilha vai cruzar novamente outro riacho onde tem outra pequenina ponte com corrimão e daqui para frente a trilha se torna uma avenida com cercas de arame nos 2 lados.
Como já eram pouco mais de 16h30min eu e o Gibson combinamos de explorar a trilha um pouco mais a frente e retornar para acampar naquele ponto da trilha larga.
Camping na trilha

Depois de vermos que a continuação da trilha mais a frente se perdia entre árvores caídas, chegamos a conclusão que teríamos de varar mato em um pequeno trecho, mas deixaríamos isso para o dia seguinte, pois descansados seria bem mais fácil avançar.
Voltamos ao local do camping, montamos nossas barracas e depois do jantar pegamos rapidamente no sono.
A noite foi tranquila e com temperatura agradável por volta de 12ºC.
No Domingo pela manhã combinamos em fazer de tudo para encontrar a trilha mesmo que tivéssemos que varar mato e lá fomos nós. 
Eu sabia que existia a trilha por ali e tinha a intenção de terminar essa caminhada na Casa da Farinha a qualquer custo.
Acesso a um pequeno sítio

Seguindo por alguns metros pelo trecho aberto da trilha, nos deparamos com uma cerca de arame que dá acesso a uma residência no meio da mata, mas não atravesse essa cerca (só se quiser pegar água no riacho ao lado) e siga rente a ela pela esquerda, passando por um pequeno trecho de vegetação até chegar em um descampado onde uma trilha perpendicular vem da casa. 
Aqui colocaram cercas de arame à esquerda e à direita da trilha, uma de frente para outra e a partir daqui a trilha entra definitivamente na mata fechada e vai subindo serra acima, mas alguns metros à frente ela se fecha totalmente por causa de inúmeras árvores caídas e não encontramos mais a continuação.
Instintivamente seguimos para esquerda, subindo por uma encosta varando mato, mas sem maiores dificuldades, já que pelo lado direito existia um pequeno vale coberto de vegetação e estava impossível seguir por lá. 
Aviso na trilha
Depois da pequena encosta, seguimos por uns 15 minutos nesse vara mato quase que em linha reta, sentido sudoeste e depois resolvemos fazer uma círculo com a finalidade de cruzar com a trilha que a essa altitude já estaria bem visível. 
E não deu outra. Encontramos a dita cuja bem demarcada e que estava bem a direita de onde seguíamos. 
É como se a trilha estivesse vindo direto da residência abaixo e para saber exatamente onde nós perdemos a trilha, resolvi descer até próximo ao local das árvores caídas, onde a trilha se perdia e cheguei até o fundo do pequeno vale que estava próximo do início do vara mato. Fica aí a dica para quem estiver vindo fazer essa trilha e quer evitar o vara mato; faça o seguinte: bem no início da trilha e assim que ela chegar nas árvores caídas, procure a continuação pelo lado direito que ela vai estar lá. 
Junto ao marco da divisa SP/RJ
Já na trilha demarcada íamos ganhando altitude, mas o calor estava insuportável e as 10:00 hrs chegamos no marco de concreto que está bem na divisa RJ/SP. Com cerca de 1 metro de altura, ele está cheio de musgos e com as inscrições dos estados e do ano de 1957 nas suas laterais.
O lugar é plano e com enormes rochas ao lado e até um bom local para acampar. 
Aqui é o topo da Trilha do Corisco, que na verdade é o selado entre os Morros do Cuscuzeiro e do Corisco.
Depois de alguns clics, iniciamos a descida para Ubatuba as 10h10min, mas a trilha segue rumo oeste se distanciando do vale do Rio Papagaio à esquerda, mas não por muito tempo e logo segue no rumo sudoeste.
Trilha fechada
Depois do topo, a trilha não é tão demarcada e a declividade é bem menor que no trecho carioca, por isso é necessário ter faro de trilha, mas o que atrapalha mesmo são os trechos em que a trilha cruza com riachos onde a vegetação é baixa e os tapetes de folhas fazem a trilha desaparecer, além das inúmeras árvores caídas, obrigando em vários momentos a fazermos varreduras em formato de círculo para interceptar a trilha mais à frente.
Um outro problema que nos acompanhava era o calor no interior daquela densa e úmida mata, fazendo com que parássemos varias vezes nos riachos para uma refrescada e em vários momentos tive de tirar os óculos e seguir sem eles, pois ficavam bem embaçados.
Poço da Rasa
O que falta de visual nessa trilha sobra de riachos, nascentes, pequenas cachoeiras e poços.
Por volta das 13:00 hrs já seguíamos ao lado do Rio da Fazenda, que ouvíamos à esquerda e pouco acima da altitude de 150 metros chegamos no Poço da Rasa. 
O lugar é um pouco escondido da trilha por algumas enormes pedras, mas é um poço bem extenso e com águas calmas, perfeito para um banho, mas não entramos.
A partir daqui a trilha se torna bem demarcada, dando a entender que muita gente vem até aqui e volta para a Casa da Farinha e nesse trecho encontramos algumas bifurcações e experimentos científicos presos em algumas árvores, que devem ser usados por pesquisadores.
Mais poções
Cerca de 1 hora depois do Poço da Rasa segui por uma bifurcação que levava ao Poço da Fazenda onde havia uma pequena cachoeira e um bom lugar para descanso. 
Parece que muita gente vem até esse local já que a trilha se torna quase uma avenida de tão aberta que é e bem diferente dá que encontramos no trecho entre a divisa e o Poço da Rasa. 
As 14h45min chegamos na placa indicativa da Trilha do Corisco com sua extensão e seu tempo de percurso e como faltavam poucos metros até a Casa da Farinha resolvemos tomar um banho no Rio da Fazenda e trocarmos de roupa.
Pouco antes das 15h30min estávamos chegando na Casa da Farinha onde fomos recebidos pelo Sr. Zé Pedro que vende alguns produtos em um pequeno balcão. 
Conversando com Sr. Zé Pedro

Como morador a mais de 59 anos do lugar e com idade de 73 anos, Sr. Zé Pedro é um líder quilombola que produz farinha de mandioca no local, além de outros produtos.
Ficamos conversando com ele por alguns minutos e perguntando sobre as trilhas da região, ele veio a confirmar o que já suspeitávamos: no bairro do Coriscão só existe uma trilha, a do Telégrafo que termina em Ubatumirim e a Trilha do Corisco só pelo bairro do Corisquinho. 
A conversa estava boa, mas tínhamos que ir embora e as 15h45min nos despedíamos do Sr. Zé Pedro e da Casa da Farinha, seguindo em direção a Rio-Santos e no meio do trajeto conseguimos uma carona que nos economizou alguns minutos. O circular passou por volta das 16h20min em direção ao centro de Ubatuba e lá embarcamos de volta para Sampa.







Algumas dicas e informações úteis (Atualizado Maio/2013)

# Os relatos das outras 3x que tentei fazer essa Trilha do Corisco ou trechos dela estão nos links abaixo, sendo a primeira delas com sucesso:
www.trilhasetrips.blogspot.com.br/2013/04/perdidos-na-trilha-do-corisco-caminhada.html
www.trilhasetrips.blogspot.com.br/2013/04/relato-caminhada-aos-picos-macela-e.html
- www.trilhasetrips.blogspot.com.br/2013/05/relato-na-busca-da-trilha-do-corisco.html

# Essa trilha, que percorre o Parque Estadual da Serra do Mar e o Parque Nacional da Serra da Bocaina foi utilizada por muitos anos antes da construção da Rodovia Rio-Santos, na década de 70 por moradores locais e animais para levar seus produtos de Ubatuba até Paraty e por vários anos foi roteiro de agencias de ecoturismo da região.

# Encontramos trechos da trilha do Telégrafo no Sábado, mas é para ser feita por quem só curte vara mato, pois é o que vai encontrar. 

# Atualmente a Trilha do Corisco está fechada em vários trechos. São inúmeras árvores caídas no meio da trilha e vegetação alta tomando conta.
Só recomendo que vá com alguém que já tenha feito essa trilha. Tenho informação que até guias já tiveram problemas nessa trilha recentemente.

# Sem dúvida nenhuma a melhor opção para se fazer essa trilha é iniciando no Bairro do Corisco e finalizando na Casa da Farinha, já que um longo trecho de subida inicial é feita por uma estrada de terra.

# Essa trilha está presente no Projeto Trilhas de São Paulo, mas que obriga a contratar um guia no Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar.
www.ambiente.sp.gov.br/wp/trilhasdesaopaulo

# Saindo bem de manhãzinha de Paraty e chegando no topo da trilha até no máximo 11:00 hrs é perfeitamente possível fazer essa trilha em 1 único dia.

# Os horários do circular que faz a linha Paraty-Bairro do Corisco estão no site abaixo:
www.paratybrasil.com.br/transporte/horario.htm

# Atualmente a trilha até o Poço da Rasa, entrando por Ubatuba, está bem demarcada e sem problemas de navegação. Só tome cuidado com os animais peçonhentos.

# Pelo lado de Paraty, o início dessa trilha está bem fechado e com um pequeno trecho de vara mato por alguns minutos. Depois a trilha segue demarcada até o topo, onde existe um marco de concreto da divisa RJ/SP.

# A sede do Núcleo Picinguaba se localiza junto ao estacionamento da Praia da Fazenda. Lá é possível encontrar contatos de guias ou procurar informações de quem possa fazer essa trilha.

# A Praia da Fazenda, cujo acesso fica próximo a estrada para a Casa da Farinha é uma das praias mais extensas de Ubatuba e uma ótima opção para um banho.

2 comentários:

  1. fasantos6608 maio, 2013

    Augusto, muito legal o seu relato.
    Realmente é uma trilha maravilhosa e que dá para fazer em um dia só. Para aqueles que não conhecem bem o caminho, o ideal é contratar um guia e percorrê-la. Com certeza eu a farei novamente.
    Abraços,

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    1. Oi Fatima, obrigado.
      Voltamos lá e dessa vez decididos a concluir essa trilha, de um jeito ou de outro.
      Mas só foi aquele trecho inicial com árvores caidas que deram uma canseira na gente, mas passou esse trecho, o resto é + - tranquilo.
      Existem ao longo dessa trilha outras árvores caídas que fazem a trilha se perder, mas era só fazer uma trilha em circulo que a continuação dela ia estar em algum lugar.
      A gente perdeu um bom tempo procurando.

      Eu acho que a contratação de um guia é necessário.
      Para quem já tem uma boa experiencia de trilha em mata fechada, talvez não tenha problemas


      Abcs

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