29 de abril de 2000

Relato: Problemas na trilha da Cachoeira da Usina do Capivari - Serra do Mar/SP

Acho que na época que estudamos em faculdades sempre aparecem as melhores trips e eu dei sorte em muitas.
Fiz várias caminhadas com colegas de sala de aula e uma delas foi bem peculiar, pois tivemos que usar alguns termos que aprendemos em Geografia, mas não para ajudar na caminhada e sim para nos livrar de uma pequena enrascada.
Depois do início das aulas em 2000 o Sandro (colega de sala) me convidou para uma trip a uma cachoeira na Serra do Mar no feriado de Tiradentes.
A Cachoeira era a da Usina do Capivari e está localizada próxima da linha férrea da E.F. Sorocabana que desce para o litoral. 
O feriado caiu em uma sexta-feira, dia 21 de Abril e era perfeito, porque dava para gente fazer em 2 ou 3 dias sem correrias.
O grande problema eram os guardas ferroviários que ficavam durante o dia na Estação Evangelista de Souza revistando mochilas e barrando alguns.
Eu nem me preocupava já que não levava nada de ilegal e achava que eles só apreendiam drogas. Ledo engano.




Foto acima, na base da Cachoeira da Usina do Capivari







Fotos dessa caminhada: clique aqui

Tracklog para GPS da caminhada até a cachoeira: clique aqui



Estávamos em 5 (eu, Sandro, Moto e mais 2 colegas que eram também da Geografia/USP) e marcamos para sair na Quinta-feira a noite e passar pela estação Evangelista de Souza no início da madrugada.
Alguns iriam se encontrar no Terminal Santo Amaro, onde o ônibus saia para o Bairro da Barragem (atualmente essa linha de ônibus sai do Terminal Parelheiros) e outros iriam pegar o ônibus já em Interlagos.
Nossa intenção era pegar um dos últimos ônibus em direção ao Bairro e assim foi.
Pouco depois das 00:00 hrs já estávamos saindo do Terminal Santo Amaro e ao longo do trajeto o ônibus se enchia cada vez mais. Engraçado que muitos passageiros também estavam de mochilas cargueiras e com certeza iriam fazer o mesmo percurso que a gente e conversando com alguns, fico sabendo que um ou outro iria fazer a travessia até Itanhaém pela trilha do Rio Branquinho, muito frequentada na época.
O Bairro da Barragem é quase zona rural e bem longe do centro de SP.
O ponto final do ônibus é em uma rua totalmente escura e depois do desembarque, pegamos as lanternas e agora era mochila nas costas e pé na estrada, seguindo pela avenida em direção da linha férrea.
Caminhamos por cerca de quase 1 Km até virar em uma pequena rua à direita e interceptar uma estrada de terra que a muitos anos atrás era uma linha férrea que saia de Interlagos e chegava até a Estação Evangelista de Souza, mas hoje seus trilhos e dormentes estão todos enterrados ou até já foram retirados (não dá para saber).
Por volta das 02:00 hrs terminamos a caminhada pela estrada e agora seguíamos por trilha ao lado dos dormentes da linha férrea que vem de Embu-Guaçú e desce a Serra do Mar.
Conforme íamos nos aproximando da Estação, mais e mais vagões surgiam pela linha férrea aguardando liberação para descer a serra e percebemos que alguns mochileiros que caminhavam com a gente procuravam uma maneira de conseguir carona, claro que na surdina.
Ponte de linha férrea
Eram por volta das 02h15min e como nós 5 iríamos sair da linha férrea antes de chegar no 1º túnel continuamos a caminhada até passar pela Estação que estava deserta, mas com alguns mochileiros descansando.
Até a Estação Evangelista de Souza a caminhada foi sempre no plano, mas a partir daqui a declividade começava a aumentar e tínhamos de encontrar um local para montarmos nossas barracas, mas ao lado dos trilhos não dava.
Tínhamos a informação que embaixo da 2ª ponte existiam alguns descampados e por volta das 03:00 hrs chegamos no lugar. 
Entrada da trilha para a Cachoeira
Descendo por um trilha do lado direito da linha só com as lanternas chegamos nas margens do Rio dos Campos onde encontramos os descampados, que já tinham sido quase todos ocupados e tivemos que montar nossas barracas em um local bem apertado, mas conseguimos dormir sem problemas aquele restante de horas até o amanhecer. 
Não dormimos muito, pois lá por volta das 08:00 hrs já estávamos desmontando as barracas e depois de alguns clics e um rápido café da manhã, voltamos para a linha férrea para caminhar pelos dormentes, mas não por muito tempo.
Uns 20 minutos depois e já estávamos chegando próximo do primeiro túnel, o de número 27. 
Cerca de 100 mts antes de chegar nesse túnel encontramos uma trilha à direita, marcada por uma grande cerca de arame e madeira bloqueando a entrada, mas bem ao lado existia uma abertura no meio da cerca.
Ponte sobre o Rio Capivari
Chegamos aqui por volta das 09:00 hrs e ainda tínhamos um pequeno trecho de trilha até chegar na ponte sobre o Rio Capivari-Monos.
Vamos seguindo na direção noroeste para depois contornar um morro que esta à esquerda e cerca de 15 minutos depois da linha férrea chegamos na ponte.
Toda de madeira, ela estava em péssimo estado de conservação e
apodrecendo em alguns pontos, mas tomando o devido cuidado atravessamos sem problemas. Ela tem uns 15 metros de altura e uns 50 mts de extensão, mas atualmente está bem diferente da foto ao lado.
Camping
Assim que cruzamos a ponte já chegamos a algumas casas abandonadas de
funcionários da antiga usina.
Montamos as barracas e seguimos para as margens do rio para dar uma explorada.
A correnteza é bem forte e uma caminhada pelas pedras pode ser uma opção bem perigosa e depois de vários clics no topo da cachoeira resolvemos seguir até a base dela que não é um percurso fácil.
Para se chegar lá tivemos que seguir próximo ao antigo duto de água que está a direita da cachoeira para sair na antiga Casa de Máquinas.
Antiga Usina
No interior da casa ainda existem alguns equipamentos que estão se deteriorando.
Depois de alguns clics fomos descendo pela encosta íngreme junto a um pequeno riacho. 
O lugar é escorregadio e íamos segurando nas pedras e na vegetação até chegar próximo da base da cachoeira que tem aproximadamente 70 mts de altura, mas pelo grande volume de água, o local é bastante perigoso e tivemos que desistir em chegar lá.
Por isso resolvemos continuar a descida pelo leito do rio seguindo pelas pedras, mas como são bem escorregadias, desistimos também e depois retornamos ao topo. 



Base da Cachoeira

Próximo da ponte sobre o Rio existe um enorme poço onde mergulhamos, mas como a água estava bastante fria, não ficamos muito tempo.
De volta às barracas, ficamos o restante da tarde conversando próximo do topo da cachoeira que tinha uma bela visão do litoral. 
Naquela tarde mais pessoas chegaram já avisando que tinham sido revistados pelos guardas na estação e apreenderam algumas coisas deles.
E segundo um dos mochileiros, os guardas não estavam perdoando nada.
Se encontrassem uma faca, facão, canivete ou algo similar, eles apreendiam.
Estavam metendo o terror, por isso eu, o Sandro e o Moto resolvemos voltar para SP no dia seguinte, em parte porque já tínhamos aproveitado bem a cachoeira e não queríamos ficar mais 1 dia só acampando.







Litoral ao fundo
A noite foi tranquila e por volta das 09:00 hrs já nos despedimos do pessoal que iria ficar e seguimos em direção à linha férrea e conforme íamos caminhando pelos dormentes encontramos mais pessoas confirmando o que já sabíamos: os guardas estavam revistando todo mundo que passasse pela estação e apreendendo muita coisa.
E nós tínhamos canivetes e algumas pequenas facas que com certeza seriam apreendidos.
Drogas eles não iam apreender porque não iam achar de jeito nenhum na minha mochila.
O problema maior era que eu não sabia o que o Sandro e o Moto carregavam em suas mochilas. Nem perguntei para não me assustar.
E só ficamos pensando como poderíamos evitar toda essa revista nas mochilas e tivemos uma ideia que poderia ou não dar certo.
Como nós 3 éramos alunos de Geografia e todos estavam com as carteirinhas da USP era só dizer que estávamos ali para fazer uma pesquisa de campo de: “movimentação de massa e controle de estabilidade de taludes”.
São termos muito usados em geografia, mas traduzindo para uma linguagem mais simples é: deslizamento de terra e isso era muito comum de encontrar ao longo da linha férrea. 
E como já esperávamos, ao chegar na estação dois guardas nos abordaram perguntando se tínhamos facas, canivetes, armas de fogos e drogas na mochila.
Dissemos que estávamos fazendo um trabalho da Faculdade e para provar, mostramos as nossas carteirinhas e as máquinas fotográficas para registrar os deslizamentos, mas procuramos não alongar muito na explicação e com isso não revistaram as mochilas.
Perguntamos os motivos de estarem fazendo isso e nos disseram que era para encontrar armas, drogas, facões e similares e dependendo da gravidade levar para a delegacia.
Eu desconfiava de um outro motivo: $$$$$.
Chegaram a nos mostrar uma sala repleta de apreensões daquele feriado prolongado e vimos muitos canivetes, facões, facas, machadinhas. Tinha de tudo.
Depois de parar por um certo tempo na Estação, as 10h30min voltamos à caminhada em direção ao ponto final da linha de ônibus Barragem, chegando pouco depois das 12:00 hrs e de lá seguindo para o Terminal Santo Amaro onde nos separamos.
Alguns dias depois nos reunimos na Faculdade e demos muita risada da situação.
O pessoal que tinha ficado lá na Cachoeira retornou no início daquela noite e com isso evitaram os guardas ferroviários, mas a situação ficou como lição.
Evite levar algo ilegal para a trilha.







Algumas informações e dicas (Atualizado Abril/2013)

# Em 2011 voltei a essa região para fazer a Trilha do Rio Branquinho que termina em Itanhaém e o seu percurso é o mesmo até o acesso à Cachoeira. 
Ao chegar no túnel 27, siga em frente pela linha férrea. Mais detalhes nesse relato: 
http://trilhasetrips.blogspot.com.br/2013/05/relato-travessia-do-rio-branquinho-de.html

# Como essa caminhada é Abril de 2000, muita coisa mudou desde então - o ônibus que faz a linha até o Bairro da Barragem não sai mais do Terminal de Santo Amaro. Ela sai do Terminal Parelheiros e a linha é a 6L05 - Term. Parelheiros - Barragem.

# Atualmente a ponte sobre o Rio Capivari está em estado deplorável e impossível atravessá-la. Está tudo podre e é risco de vida tentar cruzar a ponte por cima.
Todos que vão até essa cachoeira têm de passar pelo leito do rio, mas não é uma travessia fácil, já que a correnteza é forte. Em épocas de chuvas a coisa piora ainda mais, já que que  o rio se eleva, ficando muito fundo e a correnteza fica mais forte.
Até em dias normais é bem difícil atravessar o rio, por isso quem não sabe nadar é melhor nem ir.

# O local onde montamos nossas barracas atualmente está com o mato tomando conta. Quem foi para lá recentemente teve dificuldades para encontrar um lugar para acampar.

# Os guardas ferroviários não ficam mais na Estação Evangelista de Souza
Próximo dali sempre fica uma viatura da Policia Ambiental com alguns PMs, barrando quem quer descer pela linha do trem.

# Pelo que eu sei, eles só autorizam quem vai ao Camping/Cachoeira do Jamil, que tem um acesso pouco depois da estação.
É a única sugestão que eu dou para quem quiser conhecer a região: vá no Jamil.

# A PM fica sempre de prontidão por ali porque já aconteceram alguns acidentes fatais na Cachoeira e muita gente se perdeu na Trilha do Rio Branquinho, que segue na mesma direção.

# Regularmente a mídia divulga casos de pessoas perdidas nessa região.

# Muito cuidado na caminhada pela linha férrea porque passam trens com + - 50 vagões de carga quase que de hora em hora e o recuo de segurança em alguns trechos é bem estreito.

# Boa parte dessa região está dentro de uma Reserva Indígena, por isso é comum encontrar com alguns índios pela linha férrea.

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