31 de agosto de 2007

Relato: Travessia pelos penhascos e platôs da Serra Geral e da Serra da Anta Gorda/SC

Esse é um relato da travessia que eu, a Márcia e o Jorge Soto fizemos nos dias 23, 24, 25 e 26 de Agosto de 2007 em um trecho da Serra Geral e outro trecho da Serra da Anta Gorda, próximo ao município de Urubici, em SC, passando ao lado de paredões, penhascos e inúmeros platôs. 
Pegamos dias de muito Sol nos primeiros dias e quase no final da travessia o tempo fechou completamente e com isso tivemos que mudar nossos planos.
Uma parte dessa caminhada também  é conhecida como Travessia Campo dos Padres.



Na foto acima, os paredões da Serra Geral tomado pela neblina logo pela manhã


Fotos dessa caminhada: clique aqui

Tracklog para GPS: clique aqui



Sempre me faltou uma longa travessia pela Região Sul do país.
Pico do Paraná que eu já fiz não chega a contar muito porque é uma trilha que só leva até o topo do pico e volta. 
Existe sim uma grande travessia que pega os principais picos da Serra do Ibitiraquire, mas que ainda não tive a oportunidade de conhecer (ainda volto nessa região para fazer essa caminhada).
Já tinha lido os roteiros sobre Aparados da Serra escrito pelo montanhista Sérgio Beck e ele ia ser nossa referencia para essa caminhada. 
Ele dividiu essa caminhada em vários trechos e o que nos interessava era a primeira parte, que saia de Alfredo Wagner e terminava em Urubici.
Nosso ônibus no Terminal Tietê em SP
Marcamos inicialmente para a segunda semana de Agosto (saindo em uma Quarta-feira – no meio da semana - dia 15/08), mas devido a um contratempo, tivemos que adiar em 1 semana.
Iríamos só eu e ele, mas com a decisão da Márcia ir também, resolvemos sair na Quarta à noite (22/08). 
Dia marcado, todos nós 3 se encontramos na Rodoviária do Tietê e de lá seguiríamos para Lages (SC). 
O horário do ônibus era das 19h40min com chegada prevista por volta das 07:00 hrs.
A viagem foi tranquila e com várias poltronas vazias, pudemos até escolher onde sentar e dormir, mas foi difícil. 
Eu só cochilei algumas vezes. Era difícil pegar no sono. 
A previsão do tempo dizia que Quinta, Sexta e Sábado o tempo estaria com Sol. Só ficaria nublado no Sábado a tarde e no Domingo e para nossa infelicidade a previsão acertou. 
Rodoviaria de Lages
Chegamos em Lages pouco antes das 07h30min. 
Depois de arrumar nossas mochilas e comer alguma coisa em uma lanchonete fora da Rodoviária, voltamos para pegar o nosso ônibus.
O ônibus seguia em direção a Alfredo Wagner, que nos deixaria em um local onde iniciaríamos a caminhada (se tivéssemos chegado cerca de 1 hora antes na Rodoviária de Lages, até teríamos pego o ônibus que segue para Bom Retiro e lá era só pegar uma carona de uns 10 minutos – coisa que não era difícil). 
O ônibus para Alfredo Wagner saiu as 09h30min, passou por Bom Retiro e depois de uns 10 minutos pedimos para o motorista parar (o local onde descemos é conhecido como Lomba Alta – tem um placa bem na Rodovia indicando).



Foi aqui que descemos do ônibus

Chegamos aqui às 11h10min e de agora em diante era mochilas nas costas e pé na estrada, pois tínhamos uma longa caminhada até a crista da Serra Geral (nosso objetivo naquele dia). 
Retornamos uns poucos metros até uma estrada que segue rumo leste. 
Passamos ainda por uma pequena sede de uma Fazenda e íamos nos afastando cada vez mais da Rodovia, tendo um enorme vale à esquerda.
 A trilha vai seguindo por uma estrada de terra, passando por alguns pastos e algumas bifurcações ao longo da caminhada, mas se mantendo na estrada principal não tem o que errar.
Depois de mais ou menos 30 minutos a estrada toma rumo sul e segue agora no plano. 
Serra Geral ao fundo
Desse ponto já conseguimos avistar dois picos quase semelhantes e ao fundo o Morro das Pedras Brancas, aonde chegaríamos no final de tarde. 
A estrada segue num sobe e desce sempre com um vale a esquerda e os imponentes paredões da Serra Geral ao fundo, visão essa que já impressiona. 
Passamos por algumas plantações de cebola e alguns restos que foram jogados ao longo da estrada. 
Por volta das 12h30min paramos para um pequeno descanso e pegar algumas mexericas que estavam ao lado da estrada. De volta à caminhada e pouco antes das 13:00 hrs passamos por algumas casas e um curral do lado direito e por volta das 14:00 hrs atravessamos um rio que vinha da direita e chegamos em uma bifurcação. 
Caminhada pela estrada
Aqui é só seguir para a esquerda, seguindo por um vale com o rio sempre ao lado. 
Logo à frente existe uma antiga Igreja Adventista e mais alguns metros pudemos notar junto ao pasto um antigo cemitério do lado direito com algumas lápides ainda conservadas.
Por volta das 14h30min cruzamos com um rio que vinha do lado direito e chegamos em uma bifurcação. 
Aqui a estrada segue em frente, mas nosso caminho segue para a direita, passando bem ao lado do que já foi uma escolinha (hoje é uma residência). 
Se perguntou na casa se ali funcionava uma escolinha, como nós fizemos, então você tá no caminho certo.
Passando por essa casa, a estrada segue no plano, agora com o rio do lado direito. 
Chegando na base dos platôs

Logo à frente tivemos que pular a porteira, porque ela estava trancada com cadeado (logo depois dessa porteira avista-se uma casa ao fundo que estava vazia quando passamos). 
Esse trecho era perfeito para montar nossas barracas (todo gramado e plano com araucárias e com o rio ao lado), mas ainda era cedo. 
Depois de uns 15 minutos desde a primeira porteira, encontramos outra, mas essa já não tinha cadeado. 
Mais uns 15 minutos de caminhada chegamos numa bifurcação que nos confundiu, pois aqui a estrada principal cruza o rio para lado direito por cima de uma ponte de madeira e a outra segue para a esquerda. Qual caminho seguir? Consulta relato daqui, mapa dali e nada. 
Cruzando rios
Vimos algumas casas mais a frente, seguindo na bifurcação da direita (se a gente se perdesse, pelo menos poderíamos perguntar nas casas). 
O Jorge foi à frente e logo em seguida eu e a Márcia o seguimos. Chegamos na casa e lá só encontramos alguns bois e vacas e mais outra porteira com cadeado para pular. Nessa hora o Jorge já tinha chegado na ultima casa, que fica aos pés do paredão à frente. De longe dava para ver que ele não encontrou ninguém na casa, então eu o aguardei para que voltássemos para a outra bifurcação. Conversamos um pouco e chegamos a conclusão que tínhamos tomado a bifurcação errada. Para não termos que voltar todo o trecho, resolvemos cortar caminho, cruzando um rio que fica em uma enorme voçoroca, à esquerda. Nessa hora apareceu um cachorro que resolveu nos seguir. 
Paredão do Morro das Pedras Brancas

Do outro lado da voçoroca já dava para ver a estrada que deveríamos ter tomado.
Levamos um certo tempo para atravessar esse rio e as 16:00 hrs seguíamos em frente pela estrada, agora com o rio do lado direito e os paredões do Morro das Pedras Brancas do lado esquerdo. 
Depois de uns 30 minutos mais outro problema. A descrição da estrada não batia com os dados que estavam no relato do Beck. 
O que fazer de novo? A Márcia já estava hiper-cansada e a gente não sabia o que fazer.
Eu e o Jorge resolvemos deixar nossas mochilas em um local plano, junto a um antigo curral e iríamos explorar a trilha mais à frente. Conforme íamos subindo, a estrada ia se fechando e depois de cruzar o rio, a estrada seguia pelo lado direito dele. Passamos ao lado de outro antigo curral e uma pequena casa (que possui até energia elétrica), mas estava deserta.
Morro das Pedras Brancas
Aqui a estrada terminava e nesse ponto tivemos de cruzar novamente o rio e entrar na mata fechada, mas dava para notar que havia uma trilha ali. 
E foi o que fizemos. 
Logo à frente voltamos a cruzar para o lado direito do rio e saímos em um enorme descampado. 
A partir daqui os dados do relato do Beck já batiam com a descrição do local. 
A crista estava bem à nossa frente e alguns paredões bem ao lado, mas ainda tínhamos que subir muito, então chegamos a conclusão que não chegaríamos no topo naquele dia e o melhor era acampar por ali mesmo e só no dia seguinte chegar na crista da serra.
Voltamos para o lugar onde deixamos as mochilas às 17h30min e montamos nossas barracas por lá mesmo. 
Camping na primeira noite

Com o rio correndo bem ao lado, o lugar era perfeito e as 18:00 hrs o Sol já ia se pondo no horizonte. 
Logo todos foram para as barracas e depois de um jantar caímos rapidamente no sono, já que o dia tinha sido bem cansativo e tínhamos dormido pouco na viagem. 
Por volta das 06h30min já começamos a sair das barracas e tomar o café da manhã. 
O tempo estava perfeito e as 08:00 hrs saímos em direção à crista da Serra. 
A caminhada seguia pelo mesmo caminho que tínhamos explorado no dia anterior e logo passamos pelo antigo curral, trilha na mata fechada e chegamos ao último descampado, que anuncia a longa e íngreme subida até a crista.
O rio agora segue pelo lado esquerdo e a trilha começa a entrar na mata, zigue zagueando até a crista. 
Vale por onde subimos
A subida é bastante íngreme, com o Jorge bem a frente e eu e a Márcia atrás. 
Ao longo da subida vão aparecendo algumas aberturas na mata onde pudemos contemplar todo o trajeto que tínhamos percorrido. 
A trilha é bem demarcada e lembra um pouco a subida do Pico do Corcovado de Ubatuba, mas essa com zigs zags (em vários momentos tivemos que parar para retomar o fôlego). Encontramos ainda pegadas de bois e vacas que passaram recentemente por aqui e pouco antes das 10h30min chegamos no topo da crista da serra. Aqui o visual é impressionante. Os paredões do Morro da Pedras Brancas aparecem a noroeste. Outros a oeste e também a sudeste. 
Descansando na crista
Olhando para o leste, na base dos paredões, em direção ao litoral dava para ver fazendas e algumas pequenas vilas bem ao longe.
Aqui existe uma trilha que segue para o norte, que provavelmente deve vir de algum lugar, mas nosso caminho é seguir para o sul, subindo um pouco pela crista. 
Depois de passarmos uma pequena mureta de pedras e um pequeno trecho de mata emergimos nos campos ao sul. 
Aqui toda a vegetação estava queimada e era bem recente. 
Verdadeiro crime ambiental, mas como aqui não fazia parte de nenhum parque, ninguém se preocupava.  
O solo tinha um tipo de vegetação rasteira que dificultava a caminhada, mas como tudo estava queimado, quem sofria eram as botas e meias que se enchiam de fuligem. 
Platôs queimados

Conforme íamos caminhando, elas iam subindo e se impregnando na roupa e na pele do rosto. 
Isso quando não entravam pelos olhos.
Como os campos são planos, existem várias nascentes decorrentes das águas de chuvas, o que dificulta ainda mais a caminhada. 
Aqui o ideal é ir beirando os paredões e penhascos pela esquerda, passando junto a mata para evitar esses trechos empoçados e enlameados. 
A navegação por esses trechos é bem fácil (só seguir rumo sudoeste ou sul) e a oeste o visual era a perder de vista com vales e platôs descendo para direita e a leste seguíamos próximos aos paredões.  
Logo contornamos um morro pela direita, passando por um pequeno trecho de lama, chegando a uma cerca de arame. 
Paredões da Serra Geral

Passamos por ela e iniciamos um trecho de subida bem íngreme, que fomos contornando pela esquerda. 
Logo saímos nos campos planos e novamente tentando evitar a área enlameada contornamos pela esquerda, junto aos paredões e a mata. 
As 13h40min terminamos esse trecho plano e iniciamos uma pequena subida de um morro, contornando ele também pela direita, sempre rente a mata.
Depois de contornado o morro e descido pelo outro lado tivemos um pequeno problema. 
As informações do lugar não batiam com o relato do Beck. 
O Jorge de posse de uma carta topográfica com alguns pontos marcados insistia para que seguíssemos para a esquerda, entrando em uma mata fechada e contornando um imenso vale que aparecia do lado direito. Procurava no relato alguma informação sobre esse trecho, mas não achava. 
Belos paredões
Mas por insistência e burrice minha seguimos pela direita, mas logo vi que alguma coisa estava errada. 
Um morro com o formato de um seio de mulher surgia à esquerda. 
Era o Morro do Chapéu (assinalado na carta topográfica como Morro da Bela Vista do Guizoni) e a gente estava se distanciando dele, mas que no relato ele falava que passaríamos ao lado dele. 
Refeito do erro e do tempo perdido, seguimos o Jorge e entramos na mata fechada. 
Aqui foi um vara mato mesmo, pois a trilha está lá, mas sendo tomada pela vegetação.  
Já atrasados e por termos que abrir a trilha no braço, não foi difícil surgir o stress entre eu e a Márcia, que ia ficando cada vez mais para trás. 
Queimadas criminosas
Paramos um pouco para descansar e esfriar a cabeça e retomamos a caminhada no vara mato. Logo chegamos em uma bifurcação de uma trilha que surgia do lado esquerdo, descendo o morro. 
Provavelmente era a que deveríamos ter pego, pois ela subia o morro e em seguida descia. 
Ela não contornava o morro como a gente estava fazendo. Como diria o Robin: santa burrice Batman!!. 
À medida que seguíamos no plano contornando o vale que aparecia à direita, a trilha ia ficando mais nítida e já visualizávamos um platô, no outro selado onde poderíamos acampar.
Logo a mata vai ficando para trás e a vegetação baixa vai aparecendo. Ao sul vimos uma área de mata de encosta que estava pegando fogo, provavelmente colocado por um fazendeiro naquele momento. 
Camping no platô

Como já passava das 17h30min tínhamos que apressar a caminhada se quiséssemos chegar no platô ainda com Sol, onde acamparíamos.
Depois de cruzar uma cerca de pedras e um pequeno trecho de mata fechada e com os paredões à esquerda e o vale do lado direito, chegamos ao selado.  
Aqui era a nascente de um riacho que seguia para direita e o lugar era plano. Existiam algumas vacas e bois próximos, mas que saíram assim que a gente chegou, pouco antes do Sol se pôr.
Com o riacho ao lado, um banho foi essencial para retirar a fuligem da pele. As meias já estavam pretas e as botas cheias de fuligem e vegetação do mato que a gente tinha passado. Apesar de termos acampado em um local desprotegido, a noite foi agradável e sem ventos. O céu estava todo estrelado e depois de um belo jantar, caímos rapidamente no sono.
Só curtindo a paisagem
No dia seguinte (Sábado) procuramos acordar um pouco mais cedo, para tentar diminuir os atrasos que tivemos. 
Agora o percurso era seguir em frente, contornando a mata pela direita e tentando chegar na crista novamente. 
Na primeira abertura da mata iniciamos a subida íngreme que nos levaria até o topo e de lá já víamos o Morro do Chapéu (o do formato de um seio de mulher) ao fundo.
Quando já estávamos no topo em direção ao Morro do Chapéu, sentido sudoeste, pouco antes das 09:00 hrs a neblina chegou e tomou conta de tudo. 
Junto veio uma garoa gelada, o que nos obrigou a colocarmos algumas blusas e capas. O problema era que não conseguíamos visualizar para onde estávamos indo. 
Morro do Chapéu

Chegamos na base do Morro pela esquerda, mas nossa intenção era chegar do outro lado do vale que estava também a nossa esquerda. Mas como chegar lá se existia uma mata fechada e não conseguíamos enxergar nada a frente? Problemão. 
Como diria Carlos Drummond de Andrade: E agora José?
O jeito foi recorrer as anotações minhas e do Jorge. Lá elas diziam que o acesso a outra crista do outro lado do vale, à esquerda, só era feito por um ponto bem anterior de onde a gente estava. 
O jeito então era retornar e tentar achar esse ponto de ligação entre as 2 cristas e o foi o que a gente fez, mas quando estávamos no meio do caminho o tempo abriu e a neblina foi embora. 
Campo dos Padres
Com isso pudemos apreciar todo o vale que estava ao sul e o início da crista da Serra da Anta Gorda, nosso objetivo. 
O visual era muito bonito e dava para ver uma pequena casa no meio do nada. 
Deu para ver também que existia um trecho na mata, ao lado da base do Morro do Chapéu onde poderíamos descer até o vale e de lá subir até a crista da Serra da Anta Gorda. 
E com isso tivemos que voltar de novo ao ponto onde a gente tinha chegado.    
 A descida foi tranquila e logo caímos em uma estrada de terra, que segundo o Beck leva a Serraria dos Phillip. Daqui seguimos para esquerda e descíamos o vale para chegar ao outro lado da crista, a sudoeste, sempre passando por trechos que haviam sido queimados, o que facilitava nossa caminhada. 
Cachoeira no Rio Campo Novo do Sul

Como eu estava na frente não pude observar que uma pessoa abordou o Jorge e a Márcia, dizendo que ali não era permitido passar. Era um funcionário da Fazenda cuja sede a gente tinha visto lá da crista. Conversa vem, conversa vai, aceitou passarmos. Só fiquei imaginando como ele iria nos barrar a passagem. Porque voltar, não dava mais.
 Ao chegarmos no rio que segue para oeste (Rio Campo Novo do Sul), que corta o vale, paramos para um descanso pouco antes das 12h30min. 
De frente para uma cachoeira, comemos um belo lanche e depois iniciamos nossa longa subida íngreme. Passando por trechos abertos na mata, vamos galgando altitude aos poucos, até chegarmos na crista, que é o inicio da Serra da Anta Gorda. 
Imensos platôs
Aqui o vento sopra muito forte e o percurso é sempre no sentido sudoeste e sul. O visual lá do alto da crista compensa qualquer sacrifício para chegar aqui. 
Em todas as direções, ao longe víamos platôs, selados e enormes vales que ficavam próximos dali. 
Uma visão indescritível.
 Agora para não termos que subir o pico mais alto de SC (Morro da Bela Vista – 1827 mts de altitude) contornamos ele para a esquerda. 
E em seguida descemos até um pequeno vale.  
Quando formos atravessar um pequeno riacho, visualizamos 3 cochos de animais do lado direito, bem na base do Morro da Bela Vista. 
Caminhada pelos platôs
A trilha continua sempre no rumo sudoeste, agora contornando o morro seguinte, mas pelo lado direito e acompanhando uma cerca um pouco mais acima, do lado esquerdo. Logo cruzamos uma cerca de arame e novamente emergimos numa área de capim esponjoso, por volta das 15h30min. 
O ideal é contorná-lo para a direita ou esquerda (fica a seu critério – pelo meio, a caminhada é difícil).  
O topo do Morro à nossa frente é o nosso objetivo e a subida é cansativa e com algumas paradas, mas antes de chegar no topo, a chuva e o vento forte chegaram vindo de oeste. O vento era gelado e nos obrigou a colocar anoraks e capas de mochila. 
O problema maior era que a neblina tinha vindo junto com o vento e com isso não conseguíamos ver mais nada a nossa frente. 
Acampando no descampado
Ficamos aguardando o tempo se abrir para vermos qual caminho seguir, já que tínhamos de descer novamente a outro vale, passando por um mata. 
Quando a neblina passou vimos uma abertura na mata pelo lado direito e seguimos por ela e logo saímos em um pequeno selado. 
O tempo se fechava a todo o momento e era perigoso caminhar assim, pois poderíamos nos perder. 
Por volta das 17:00 hrs, já cansados e bem molhados, procuramos um lugar plano e não muito exposto, onde pudéssemos montar nossas barracas e que não fosse em terreno alagado. Demorou um pouco, mas encontramos um ao lado de um riacho. Foi só montar as barracas e a garoa voltou de novo, juntamente com rajadas de vento. Logo depois de ajeitar as coisas dentro da barraca, fizemos o jantar e logo fomos dormir. 
Cruzando rios

O que assustava um pouco eram as rajadas de vento que a todo momento mexiam com a barraca. Só torcíamos para que não chovesse muito forte, mas foi o que aconteceu. 
Por volta das 03:00 hrs da madrugada acordei assustado, com o vento e uma chuva muito forte que continuou por algumas horas  e pensei comigo: lá se foi o último dia de nossa caminhada. 
Era um Domingo, mas pelo menos aproveitamos bem os dias anteriores. Voltei a dormir de novo e lá pelas 06:00 hrs acordei. A chuva e o vento tinham parado, porém o tempo estava totalmente nublado. Pouco depois das 08:00 hrs iniciamos a caminhando e pelo roteiro do Beck deveríamos descer até o fundo do vale e depois seguir por uma estrada à esquerda, passando próximo a uma casa bem na crista, mas novamente os dados do relato não batiam com as informações do lugar. 
Voltando para estrada
O jeito era seguir por essa mesma estrada, mas para o lado direito com o intuito de chegarmos até a crista (próximo da casa) e lá as coisas ficavam mais fáceis, mas quando chegamos lá no alto a neblina retornou e com isso a caminhada pela crista tinha ido para o saco (era perigoso caminhar com tempo desse jeito). 
Como era Domingo e teríamos de voltar a SP naquele dia, resolvemos não arriscar e seguir pela mesma estrada de terra, que com certeza terminaria em alguma vila ou Rodovia, onde poderíamos pegar uma carona ou ônibus para Urubici e de lá para Florianópolis e depois voltar para casa.  Isso já era ponto pacífico. 
Longo trecho na estrada
O problema agora era quanto a gente teria de caminhar, pois na carta topográfica não encontramos a estrada na qual a gente estava, então nem sabíamos para onde estávamos indo.
As 09h30min iniciamos nossa caminhada pela estrada, saindo da crista e ao longo dela passamos ao lado de antigos currais desertos. A estrada sempre segue descendo rumo sul, tendendo a vezes para sudoeste e com marcas de pneus de motocicleta e de alguns veículos (pensamos com a gente: a vila não deve estar tão longe assim não). Ledo engano.
A nossa companhia só foram alguns bois, vacas, cavalos e uma família de quatis. Ser humano mesmo...........nada.
Pouco antes do 12:00 hrs avistamos uma pequena sede de uma Fazenda aonde a energia elétrica chegava. 
Finalmente vamos encontrar pessoas, pensamos. 
Chuva pelo caminho
Foi difícil, mas um senhor saiu de dentro da casa e com um facão na bainha bem à vista (talvez ele tenha pensado que fossemos bandidos?) veio nos passar algumas informações. 
Falou que o lugar se chamava Campos dos Padres e que até a próxima Vila, que se chama Rio dos Bugres ainda restavam 16 Km. 
De motocicleta ele disse que fazia por volta de 1 hora esse trecho. 
E lá fomos nós, de volta à caminhada e felizes de que poderíamos chegar na Vila talvez antes das 16:00 hrs. 
Lá pelas 13:00 hrs a chuva retornou e com força, juntamente com o vento (cada vez mais a temperatura diminuía) e em algumas bifurcações da estrada sempre ficávamos na dúvida se estávamos seguindo corretamente (sempre se mantenha na estrada principal), pois a neblina não deixava a gente ver nada ao redor. 
Bifurcação para Vila dos Bugres
Passamos ainda ao lado de um curral abandonado, do lado direito e logo que começamos a perder altitude já ouvíamos cachorros e alguns galos. Era sinal de que a Vila estava próxima.
Lá pelas 15h30min 2 senhores a cavalo vestidos de poncho passaram pela gente e até se assustaram. Devem ter pensados o que 2 caras e uma garota, todos de mochilas estão fazendo por essas bandas, todos molhados. 
Passaram a informação de que a Vila dos Bugres estava bem próximo e Urubici estava ainda a 18 Km. 
Disse que poderíamos pegar uma carona na Vila e era com isso que a gente contava. 
Fomos chegar perto da Vila as 16h30min e lá tomamos a estrada para esquerda, sentido Urubici.  
Caroninha de trator

Tentamos algumas caronas, mas todas se recusavam (vendo a gente daquela maneira era difícil conseguir mesmo). 
Logo dois tratores aproximavam e conseguimos carona no primeiro, mas que nos deixou só uns 5 Km a frente. 
Assim que descemos desse trator já pegamos carona no que vinha atrás. E lá fomos nós, passando por plantações para nos deixar próximo a outra estrada. Lá não teve jeito. 
Tivemos que caminhar até a entrada da cidade onde chegamos pouco antes das 18:00 hrs. 
Tínhamos a informação de que um ônibus saia de Urubici para Florianópolis por volta das 19:00 hrs e logo na entrada da cidade conseguimos uma outra carona até a Rodoviária onde chegamos as 18h10min.  
Bem vindo a Urubici

O ônibus para Florianópolis saia as 18h40min e o tiozinho que nos vendeu a passagem nos informou que lá em Florianópolis haveria ônibus para SP por volta das 23:00 hrs (pensamos com a gente, será que chegaremos em casa na Segunda de manhã depois de tudo que passamos?).  Era cedo ainda para comemorar. 
O ônibus de Urubici só chegou em Florianópolis por volta das 22:00 hrs e ônibus para SP já não existiam mais. 
O último era das 21:00 hrs. Então nossa opção foi pegar um ônibus para Curitiba que saiu as 23h15min e de lá para SP saindo as 06:00 hrs e chegando pouco depois das 12h30min sãos e salvos. Não estávamos tão felizes e contentes, mas valeu a caminhada.
Só lamento pela chuva que nos pegou nos últimos dias e nos fez encurtar essa caminhada. 
Com certeza ainda retorno para a região sul, ou para fazer a sequencia dessa travessia (de Urubici a Bom Jardim da Serra) ou alguma outra, onde existe esse tipo de vegetação de campos de altitude, que permitem belos visuais ao redor. 





Algumas dicas e informações (Atualizado Abril/2013)

# Só procure explorar essa região de SC se o tempo estiver bom e sem chuvas. Com neblina não se aproveita nada por lá. 

# Em muitos trechos o percurso é sempre no visual, tomando como referência algum pico ou morro próximo, então se o tempo estiver fechado ou com neblina é até perigoso de se perder.

# A vegetação típica nessa travessia são os campos cobertos de gramíneas e mata nebular nas bordas dos platôs. Por isso é uma caminhada com ótimos visuais e sem nenhum impedimento. 

# O frio em SC é sempre bem mais rigoroso que em qualquer outro lugar do país, então se for fazer travessias no inverno por lá, vá preparado.

# Logística é sempre complicada nessa região. A oferta de ônibus é sempre escassa e muitas vezes tem de depender de caronas.

# Segundo o Sérgio Beck, na Serra Geral existem 4 roteiros (o que fizemos foi o primeiro). É extremamente recomendável levar algum tipo de croqui, carta topográfica ou as imagens do google earth com a trilha plotada, pois o relato do Beck se revelou desatualizado, que nos fez perder um tempo precioso. 

# Para fazer esse roteiro especifico que a gente fez, recomendo 4 dias, no mínimo. Isso se não acontecer nenhum imprevisto. 

# Existe uma Fazenda no início da crista da Serra da Anta Gorda. Ali é o melhor ponto de resgate ou desistência em caso de problemas. 

# Para quem só viu em fotos os paredões de Aparados da Serra, quase o mesmo visual está na Serra Geral. Então vale a pena. São visões inesquecíveis. 

# Como a região é difícil acesso, depois que se estiver na crista, um resgate por lá é sempre complicado. 

# Foi até um pouco difícil encontrar uma vivalma na travessia. Muitas das casas ou sedes de fazendas estavam abandonadas. 

# Não completamos o roteiro do Beck, mas quem quiser fazer, se prepare para pegar trechos bem difíceis. Nós tivemos que desistir devido ao tempo fechado. 

# Não tivemos problemas quanto a água. Achamos em vários pontos dessa travessia.

# A empresa de ônibus que opera nessa região é a Reunidas:
www.reunidas.com.br


6 comentários:

  1. diegodotta25 abril, 2013

    Poxa Augusto, uma pena os percalços da aventura, mas pelas fotos estavam bem preparados para os imprevistos.

    Realmente pegaram uma época meio danada para esses lados, neblina e frio é bem comum até mesmo no litoral.

    O importante é dar boas risadas das roubadas no final, bom que deu tudo certo.

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    1. Nós demos um azar daqueles viu Diego.
      Vai entender esse clima.
      Acho que tivemos que caminhar uns 30 Km no último dia, sendo a maior parte debaixo de chuva.
      E depois qdo voltamos a SP, só pegamos tempo bom.
      Nessa hora a gente fica pensando que o Universo conspira contra nós.

      Mas qqer dia a gente retorna para fazermos a Serra Geral mais para o sul.
      Ali ainda tem uns 3 ou 4 roteiros bons dessa serra para se fazer.

      Abcs

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  2. você como sempre é bem detalhista nas suas anotações ... espro que suas dicas ajudem outros aventureiros ...
    vou imprmir pra ler com calma ...

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    1. É essa mesma a minha intenção Everaldo.
      Que outros façam esse roteiro, pois o visual no segundo dia, quando vc está na crista é indescritível.

      Só torço para que não peguem tempo ruim, que acabou prejudicando o nosso ultimo dia.

      Valeu.

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  3. fabriciolusolli25 abril, 2013

    Ola Augusto
    Estou planejando fazer este trajeto mas fui informado que só se pode fazer com guia da região cadastrado pois os donos das fazendas estao proibindo a passagem e mandam vc de volta. O que vc sabe a respeito deste assunto? Vc precisou de autorização ?
    Desde ja agradeço sua Ajuda
    Fabricio Luçolli
    Brusque - SC

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    1. Blz Fabricio.

      P/ essa travessia não precisamos de autorização, mas nos disseram que era proibido passar por um trecho dessa caminhada.
      Aconteceu assim: qdo estavamos descendo do Morro do Chapéu (aquele do formato em seio de mulher) em direção ao Rio Campo Novo do Sul, a gente foi abordado por um funcionário de uma Fazenda, dizendo que não era permitido passar por ali, mas conversa vai, conversa vem e nos liberou.
      Não sei se essa proibição é somente nesse ponto da travessia.
      Se for, é possivel evitar ser visto por alguém da Fazenda passando o mais longe possível da sede da Fazenda. É o que dá p/ fazer.

      Se a proibição é em outros lugares da travessia, aí já não sei como resolver.

      No início da travessia, antes de chegar nos platôs do Morro das Pedras Brancas e da Serra Geral, atravessamos algumas porteiras que dão acesso a algumas fazendas. Se essa proibição for ali, vai ter de ser somente na conversa p/ te liberarem.

      Não tenho certeza, mas se os donos de Fazenda estão exigindo guias, é porque estão cobrando o acesso. Será que pagando não resolve?

      Se vc der uma pesquisada no google verá que essa travessia está sendo realizada por muitas outras pessoas. E nos dois sentidos.
      Isso é muito bom.


      No mais boa sorte.

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